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UTI Neonatal: Um segundo útero?

  • Foto do escritor: Luana Inácio
    Luana Inácio
  • 19 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

 “Sei que meu filho já nasceu; ele, estando na UTI neonatal, dá a sensação de que ele não nasceu... Ainda nem consegui pegá-lo no colo” (frase de uma mãe que esteve com o bebê hospitalizado).




A frase acima ilustra a vivência de uma das mães que teve seu bebê internado durante um mês na UTI neonatal. Durante os atendimentos, ela relatava suas angústias e medo de perdê-lo. Por ter abortado anteriormente três vezes, o bebê simbolizava a concretização dos sonhos e sua realização de ser mãe.

A UTI neonatal é um lugar que está a serviço da vida do bebê que chega ao mundo de uma maneira diferente: adoecido, medicado, acolhido pela incubadora, em vez do calor materno.

Em termos gestálticos, a UTI neonatal representa a fronteira de contato que separa o bebê da mãe e do meio externo. O bebê ainda não se encontra suficientemente maduro para se relacionar com o mundo externo, ou seja, seu pulmão não está maduro, precisa de oxigênio, de medicações. 

A UTI será o heterossuporte capaz de oferecer-lhe as condições indispensáveis para que sua saúde seja restabelecida e, em alguns casos, será o local que favorecerá a complementação do período gestacional. Sendo assim, a UTI neonatal representa um segundo útero, ou seja, ocupa na vida do bebê, o “papel da mãe”, porém, com os cuidados transferidos para a equipe médica e de enfermagem. 

Segundo a Gestalt-terapia, a fronteira de contato é o lugar onde ocorre o contato do homem com o meio ambiente, sendo a permeável e plástica. A função da fronteira é delimitar, proteger, diferenciar o eu do não eu e promover a experiência entre ambos. 

A incubadora pode ser a representação concreta da fronteira, pois simula o útero materno. A equipe é orientada a manipular minimante o bebê, para que ele se sinta como se estivesse no útero da mãe. A temperatura é aquecida e sua função é, também, a de proteger, de separá-lo do meio. Já se diferenciam bebê e mãe como seres distintos nesse instante, pois são oferecidos recursos para que a criança possa alcançar o seu amadurecimento e voltar aos cuidados maternos. 

A hospitalização do bebê

Diante da hospitalização, a mãe pode se deparar com sentimentos, tais como, angústia de finitude, separação, morte, ansiedade, entre outros. A UTI é um ambiente desconhecido e ameaçador, o contato com a morte, a instabilidade do quadro clinico, potencializam os medos, fazendo com que os pais se preparem para uma possível perda.

Durante os atendimentos, as mães relatam que o bebê, muitas vezes, já fazia parte do seu imaginário antes mesmo da concepção e que, a esse novo ser, já havia atribuídos significados. 

Dessa maneira, nos atendimentos com as mães de UTI, a compreensão da sua história de vida, as projeções em relação à chegada do bebê são fundamentais para compreender a relação que a mãe estabelecerá com o filho durante a hospitalização.

Outra questão importante a ser considerada, a internação interrompe o investimento afetivo que os pais forneceriam ao bebê que, a partir do nascimento, não é mais o bebê dos sonhos, mas sim o bebê real, que necessita dos cuidados médicos, da sua presença e amor. A internação ameaça a celebração da família, pois muitos lamentam a doença do filho e se culpam por isso.

Uma mãe assim se expressou: “A única coisa que quero é poder sair com o meu bebê, poder pegá-lo no colo, amamentá-lo, cuidar dele. Sinto que ele é mais da equipe do que meu. Entrei menina do hospital e vou sair mãe! Tenho aprendido com meu bebê a esperar por sua recuperação, pelo tempo dele. Meu marido me disse que éramos incapazes de gerar um filho perfeito”.

Esse relato expressa a dor, a culpa e a frustração dos pais por não terem gerado um filho perfeito e saudável, que realizaria seus sonhos, como levá-lo para casa ou tê-lo em seus braços.

O papel do psicólogo

Em meio a esse ambiente, acredito que o papel do psicólogo é oferecer um espaço de cuidado para as mães, acolhendo o sofrimento, as angústias e a ansiedade. 

Apoiada nos pressupostos da Gestalt-terapia e, com ênfase na postura dialógica, meu trabalho com as mães consiste em ajudá-las a ressignificar o contexto da hospitalização. Considerar a dor, o sofrimento da mãe, permite que ela entre em contato com os seus sentimentos, reconhecendo os seus próprios recursos e ajudá-la a criar outros para o manejo da situação. 

É importante considerar que, nos partos prematuros, a mulher pode sentir que seu ciclo gravídico ainda não foi completado. Algumas mulheres relatam que, de alguma maneira, elas também se encontram “prematuras” frente à situação de hospitalização. Sendo assim, o fato do bebê precisar ficar na neonatal provoca uma ruptura dos sonhos familiares, principalmente no que se refere às expectativas da mãe e de seus cuidados, pois eles são adiados até o momento da alta do bebê, que para algumas mães, inaugura o nascimento, a possibilidade de exercer a maternidade concretamente. 

Dentro do contexto hospitalar, acredito ser importante considerar os aspectos emocionais dos pacientes, observando o ser humano em sua totalidade. Nesse contexto, considera-se fundamental o diálogo com os outros profissionais da saúde, e o psicólogo pode ser o facilitador desse processo, compartilhando com a equipe a ideia de que, além dos cuidados com o bebê, existe uma mãe com necessidades próprias e que precisa também de cuidados e atenção, ou seja, é necessário valorizar a sua capacidade de ser mãe, os cuidados em relação ao bebê, o que poderá assegurar sua capacidade de cuidar do bebê em casa, assim que ele tiver alta. 

Referências Bibliográficas: PINTO, L.I.O. UTI Neonatal: Ressignificações da relação mãe-bebê. Trabalho de conclusão de curso- Departamento de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae. São Paulo: 2011.

______________.UTI Neonatal: Ressignificações da relação mãe-bebê. Revista de Gestalt. Departamento Gestalt-terapia. Instituto Sedes Sapientiae. Ano XVII-Vol. 17- Ano 2012.

stalt-terapia. Instituto Sedes Sapientiae. Ano XVII- Vol.17- Ano 2012. 

 
 
 

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