top of page

Relação mãe-bebê: uma compreensão gestáltica

  • Foto do escritor: Luana Inácio
    Luana Inácio
  • 19 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

“O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro” (Martin Buber)




Durante meu trabalho no hospital, pude acompanhar as gestantes, os seus depoimentos das mudanças ocorridas nessa fase, o início do vínculo mãe-bebê. Nesse texto, pretendo ressaltar a compreensão gestáltica do tema a partir da minha experiência.

A Gestalt-terapia compreende o ser humano como um ser relacional, considerando-se o meio ambiente e o campo, e o sentido que ele atribui para suas experiências. 

A relação mãe-bebê é marcada pela indiferenciação, em que a mãe necessita se identificar com o bebê para atender suas necessidades, inaugura a primeira forma de relação que o ser humano estabelece com o outro. É nesse relacionar-se que posteriormente o indivíduo pode se reconhecer no mundo com o diferente: com o outro.



O período gestacional: vínculo mãe-bebê

Dessa maneira, pode-se compreender o processo gestacional como uma configuração que abarcam fatores emocionais, cognitivos, orgânicos, comportamentais, sociais, históricos, culturais, geográficos e espirituais. 


A gravidez é um momento de transição e faz parte do processo normal do desenvolvimento, é um período que envolve a necessidade de uma reestruturação e ajustamentos em várias dimensões da existência da mulher.


A chegada do bebê é tangenciada pelas histórias familiares, projeções e desejos dos pais. Sendo assim, o período da gravidez é relevante para o funcionamento da família, pois é a partir das expectativas e emoções que os pais investirão no período gravídico, que garantirão ao bebê, após seu nascimento, muito amor e cuidado. 


O período gestacional é marcado por fases do desenvolvimento do bebê: outro ser que se constitui dentro da mãe e, ao mesmo tempo em que é parte dela, também é diferente.


Esse período compreende, aproximadamente, 40 semanas e é o tempo em que todos os envolvidos, mais especificamente a mãe, têm para assimilar uma corresponsabilidade pela existência de um outro, ou seja, de um ser diferente. 


Pode-se dizer que, nesse movimento de gestar, a mãe experimenta mudanças corporais, sensações, emoções às quais ela atribuirá significados, conforme suas experiências anteriores e conforme a maneira como vivenciará o momento atual.


A placenta exerce a função de contato, que delimita e separa o bebê da mãe. Ao mesmo tempo em que o bebê é parte da mãe, já que existe uma confluência necessária entre ambos, ele também é o outro, o diferente. 


A partir das necessidades que a mulher vivencia durante a gestação, ela desenvolverá maneiras de se comunicar com o bebê: algumas relatam que cantam músicas, outras conversam, contam histórias etc., e dizem que sentem que os bebês respondem às suas falas.


Em um dos atendimentos realizados no hospital, uma jovem paciente descreveu o desejo de ser mãe, “sempre quis ser mãe, desde pequena, queria muito engravidar, e quando engravidei conversava todos os dias com o bebê, não via a hora que ele nascesse, ficava imaginando o rostinho, como ele seria. Quero poder dar para meu filho a família que não tive” (sic-paciente). 


Considerando-se que a existência se define pela relação campo-organismo-meio, é possível constatar uma mudança biopsicossocial na vida da mulher, pois a partir do momento em que se descobre grávida, diversos ajustamentos serão necessários para uma reorganização. A confluência inicial entre mãe-bebê é de vital importância, num primeiro momento; não existe uma separação entre eu-outro, ambos estão ligados fortemente. Tal identificação é necessária para que a mãe possa cuidar e atender às expectativas do bebê. 


No período gestacional, a atenção dos pais se voltam para o bebê que está a caminho; pois ficam atentos às mudanças, aos movimentos do bebê. É esse acompanhamento que possibilita a vivência para tornarem-se mães e pais. 


O bebê não pode ser considerado como um receptor passivo da ação de fatores externos, mas alguém com características próprias, que se constrói desde os primeiros meses de vida intrauterina.


A confluência marca as relações iniciais do bebê e, posteriormente, com o desenvolvimento da fronteira de contato, inaugura-se o processo de separação eu-outro, com progressiva autonomia em relação ao mundo, dando lugar a um relacionamento de apego e à formação dos vínculos afetivos.


Serão os adultos que dirão quem será o bebê, bem como eles serão os responsáveis por acolher suas necessidades. Pensar em desenvolvimento implica considerar o meio familiar, em particular, a mãe, ou quem exercer a função de heterossuporte. É importante conhecer os ajustamentos que foram necessários para receber o bebê, quais as expectativas que os pais atribuem à ele, pois nesse momento o bebê nasce completamente dependente, com poucos recursos para lidar com o mundo, e será o adulto o responsável para suprir suas necessidades e mostrar-lhe o mundo. 




A relação mãe-bebê é a primeira relação que o ser humano estabelece com o outro, uma relação baseada na indiferenciação, na satisfação das necessidades e na dependência absoluta da sobrevivência.


Referências Bibliográficas: PINTO, L.I.O. UTI Neonatal: Ressignificações da relação mãe-bebê. Trabalho de conclusão de curso- Departamento de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae. São Paulo: 2011.

_______________. UTI Neonatal: Ressignificações da relação mãe-bebê. Revista de Gestalt. Departamento Gestalt-terapia. Instituto Sedes Sapientiae. Ano XVII- Vol.17- Ano 2012. 

 
 
 

Comentários


bottom of page